domingo, março 08, 2015

Vox Populi

Este conto é um conto do Caveira, personagem criado pelo autor Luiz Hasse, e o cosplay é interpretado nos eventos por este que vos digita. O conto foi criado por mim como promessa ao autor original. É uma pequena imersão nas dificulades que ele passa, junto ao azar do protagonista. Mas quem é o Caveira, e o que ele faz? Em breve, um post especial sobre isso. 

Vox Populi

Hoje é quarta feira. E, já faz uma semana que estou vigiando um sujeito que tem me dado muitos problemas. Parece que um peixe grande do tráfico andou perdendo poder e começou a misturar um componente químico junto com o pó mágico dele. E isso está matando as pessoas pouco tempo após o uso. Parece que ele escolheu moradores de rua como vítimas. E todos vieram pedir vingança. Quase que ao mesmo tempo.

    Não bastassem mais de trinta almas agonizando enquanto tentam se comunicar comigo desesperadamente, o desgraçado é um homem prevenido. Não sai de casa sem um carro com vidros blindados, ou com menos de três seguranças. Mesmo em locais abertos. E ele é amigo de muitas pessoas. Isso deixa meu trabalho difícil. Não posso me jogar no meio dos seguranças e fazer um ataque surpresa. Acredito que ele tenha alguns seguranças a paisana também, mas tenho minhas dúvidas.

    Foi então que achei uma brecha em sua agenda. Quarta passada ele tirou o dia para assuntos triviais. E hoje ele veio a um dos inferninhos mais requintados da cidade, localizado um tanto distante dela. Pequeno, discreto e de qualidade. Antes de entrar, ele se encontrou com um contato. É uma pessoa a quem ele vê e fala com frequência. Sei pois ele diz muito seu nome quando faço leitura labial de suas ligações. Mas não consigo ler a conversa atual deles. Estou posicionado no único ponto estratégico possível, no canto de um telhado de sobrado em meio a duas casas pequenas. E, além de uma árvore que balança muito com o vento atrapalhando minha visão, o céu está desabando. Finalmente a previsão do tempo acertou quando disseram "pancadas de chuva". Se eu descer, perco um bom campo de visão. Não tenho como me mover.

    E essa chuva forte e gelada caindo em minhas costas.


    As vezes, ser O Caveira é complicado. Embora minha máscara tenha me ajudado muito, não só a construir minha reputação, como também a amedrontar meus inimigos, ela não me concede visão total. Não consigo ter uma visão completa e preciso confiar apenas em meus ouvidos. Minhas vestes são cheias de truques escondidos e peças que me protegem estratégicamente. E por isso mesmo são pesadas.

    Ele terminou. Consegui ler algo como "Pacote na boca do lobo" e "A Morsa te ajuda". Eu confesso que sinto vontade de investigar tudo isso e impedir mais mortes. Mas há fatores que tornam essa busca dispensável. Primeiro que, mesmo eu o matando, o império dele aqui será dividido entre os nomes que ele conhece e confia melhor, isso não acabaria tão fácil. Também que, é só um fardo a mais. Eu poderia colocar minha vida em risco. Posso estar lidando com algo muito maior do que agora.

    E com certeza isso não vai aliviar eles. Só a morte dele vai os aliviar. E a mim. É o que eu queria hoje, além de que essa chuva gelada parasse só por alguns instantes. Juro que se eu pudesse, descia daqui e sacrificava parte do meu salário para entrar ali e me manter perto do alvo. Mas ele fechou a casa para seus amigos, e vai entrar logo logo. A não ser que ele resolva cuidar de neg...

    Tem algo estranho acontecendo. Um carro chegou, e a reação de seus seguranças não foi das melhores. Ele entrou no carro.

Cinco homens saíram do carro. Todos vestindo sobretudo. Um tiroteio. Maravilha. Os homens do carro novo atiraram com sub-metralhadoras automáticas. Os homens dele não tiveram nem chance. Justo quando eu achei um dia para pegá-lo. Mas pelo menos tirei minhas dúvidas, ele tinha mais três homens a paisana com ele. Acho que ele sabia que isso ocorreria. Dois homens dele entraram. Provavelmente para garantir a proteção de seus amigos.

    Acho que a sorte está me ajudando. Os caras da organização inimiga estão entrando para render o pessoal e deixaram só dois cuidando do carro. Consegui ler um "não o machuquem, quero ele vivo". Minha chance.

E antes que eu pudesse me posicionar, sirenes.


Que merda! Hoje não é meu dia.

Terei de ler os jornais amanhã. Felizmente me livrarei dessa chuva gelada nas costas.

 O que eu pude saber através dos jornais principais, é que perdi outro tiroteio, desta vez entre os homens da organização rival e a polícia. A polícia estava em vantagem, e rapidamente os renderam. Alguém viu as metralhadoras e ligou para que a polícia seguisse o carro. Meu alvo foi preso e solto no mesmo dia. Quer dizer, ninguém sabe até agora. Mas eu sei. Sei os lugares onde ele vai, seus clientes e seus amigos. Sei até mesmo os números das placas falsas de seus carros. Tudo isso porque, pela primeira vez, quero acabar com a vida de alguém para que essas almas descansem e me deixem descansar. Isso me fez trabalhar incessantemente.

    Eu sou o caveira. Vejo e ouço os mortos. Tento resolver as coisas com o mínimo de violência. Faço o que faço pelas almas desesperadas. Mas as vezes faço-o por mim. Para ter um dia de trabalho seguido de um longo sono, como todos. Sou humano também.

    E quarta feira, ele não escapará. Virá me atormentar logo após sua morte. Mas é a palavra de um contra a de trinta. Vox populi.

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